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Parintins 2025: Tradição, Identidade e Disputa Cultural no Coração da Amazônia

Parintins, a ilha encantada no meio do rio Amazonas, viveu mais uma vez o êxtase de sua maior celebração cultural: o 58º Festival Folclórico de Parintins, encerrado neste domingo, 29 de junho. Durante três noites, o Bumbódromo se transformou em palco de um espetáculo vibrante, onde os bois-bumbás Caprichoso (azul) e Garantido (vermelho) disputaram não apenas um título, mas o coração de uma multidão apaixonada.

Em Parintins, vestir azul ou vermelho é um ato de pertencimento. A cidade se divide simbolicamente entre os dois bois, com a Catedral Nossa Senhora do Carmo marcando a fronteira entre os territórios das torcidas. A rivalidade, embora intensa, é regida por um código de respeito mútuo: os torcedores evitam usar as cores do boi adversário e, durante as apresentações, a torcida do boi que não está em cena permanece em silêncio absoluto — qualquer manifestação pode resultar em penalização.

A edição de 2025 bateu recordes de procura. Os ingressos, com preços entre R$ 550 e R$ 4.800, esgotaram-se em apenas 15 minutos. Os camarotes, vendidos exclusivamente online, desapareceram em 60 segundos. A expectativa era de mais de 120 mil turistas na ilha, dobrando a população local e movimentando cerca de R$ 184 milhões na economia regional.

Neste ano, o Caprichoso defendeu o tema “É tempo de retomada”, exaltando a resistência dos povos amazônicos, a espiritualidade indígena e a força das mulheres da floresta. A apresentação incluiu a lenda do Sacaca Merandolino e um ritual Munduruku que denunciou a violação de territórios sagrados.

O Garantido, por sua vez, levou à arena o tema “Boi do povo, boi do povão”, celebrando o boi como símbolo de resistência popular e fé. Com o subtema “O boi é brinquedo, mas não é brincadeira”, o vermelho e branco homenageou a história de Catirina e a força das tradições afro-brasileiras e indígenas.

Cada boi apresentou cerca de 20 toadas, misturando composições inéditas e clássicos que embalam suas torcidas. Os espetáculos foram avaliados em 21 quesitos, que vão desde a performance do pajé e da cunhã-poranga até a qualidade das alegorias e a coerência do enredo.

Apesar da rivalidade, há reconhecimento mútuo da importância de ambos os bois. Como afirma Suzan Monteverde, integrante da comissão de artes do Garantido: “Fora de Parintins, eu peço licença para chamar o boi contrário de Caprichoso, porque entendo que, quando falamos da nossa cultura para o mundo, um não faz festival sem o outro”.

Mais do que uma disputa folclórica, o Festival de Parintins se consolidou como uma vitrine da cultura amazônica. Com apoio institucional e investimentos públicos e privados, o evento promove inclusão, sustentabilidade e geração de renda, além de reforçar o orgulho de um povo que transforma sua história em arte.

Agora, resta a pergunta que ecoa na ilha e nas redes sociais: quem será o campeão de 2025? A resposta virá com a apuração oficial, mas para os parintinenses, o verdadeiro vencedor é a cultura que pulsa em cada batida do tambor.

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