Leitura no Brasil, entre avanços e retrocessos (1980–2024)
Por Quadros Strayed
Ao longo das últimas quatro décadas, o Brasil vivenciou uma trajetória complexa em relação ao acesso aos livros e aos hábitos de leitura da população. Partindo de um cenário restrito nos anos 1980 até uma expansão promovida por políticas públicas nas décadas seguintes, o país apresenta um retrato multifacetado da conexão entre seus cidadãos e o universo literário.
Segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, sexta edição, realizada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro com apoio da Fundação Itaú e do Ministério da Cultura, apenas 47% dos brasileiros leram ao menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Isso representa uma perda de cerca de 6,7 milhões de leitores em relação à edição anterior. A média anual de livros lidos caiu para 3,96 por habitante, o menor índice desde que a série histórica começou em 2007.
Nos anos 1980, o acesso aos livros era bastante limitado. As obras circulavam majoritariamente em centros urbanos, e o público leitor era formado por camadas sociais mais elevadas e acadêmicas. Nesse período, destacavam-se os clássicos da literatura brasileira, como os de Machado de Assis e José de Alencar, além de livros religiosos e didáticos usados nas escolas.
Na década de 1990, houve um leve crescimento no número de leitores graças à expansão das bibliotecas públicas e ao fortalecimento dos programas educacionais. A literatura infantil começou a ganhar força, e gêneros como autoajuda e romances populares tornaram-se mais acessíveis, com autores como Augusto Cury e Danielle Steel figurando entre os mais lidos.
O período entre 2000 e 2010 representou um salto significativo. A média de livros lidos por pessoa ultrapassou quatro exemplares anuais, impulsionada por políticas de distribuição de livros didáticos, o crescimento da indústria editorial e a popularização de obras juvenis, como Harry Potter. Autores nacionais e espirituais, como Paulo Coelho e Zibia Gasparetto, passaram a fazer parte da rotina de leitura de milhões de brasileiros.
A década de 2010 manteve esse avanço, chegando ao pico histórico de 4,7 livros por pessoa por ano. Nesse momento, ganham destaque livros motivacionais, poesia contemporânea e quadrinhos, além do início da leitura digital por meio de e-books e dispositivos móveis.
A partir de 2020, no entanto, iniciou-se uma regressão nos hábitos de leitura. A pandemia, o fortalecimento das redes sociais como principal fonte de entretenimento e a perda de protagonismo das escolas como espaços de estímulo à leitura contribuíram fortemente para essa queda. Em 2021, a média caiu para 3,5 livros anuais, em 2022 para 3,2 e em 2023 para 2,8. Os dados trimestrais de 2024 indicam uma média de apenas 2,04 livros nos primeiros meses do ano, embora o índice consolidado deva se manter próximo a quatro.

Entre os gêneros mais lidos no período recente estão os romances contemporâneos, com forte presença de autoras como Colleen Hoover, além de livros religiosos, autoajuda e thrillers literários. A Bíblia continua sendo o livro mais lido do país. Apesar do crescimento da leitura em plataformas digitais, esse avanço não compensou a perda dos leitores tradicionais.
Outro dado preocupante da pesquisa de 2024 é que 53% da população não leu um único livro nos três meses anteriores à entrevista. Além disso, apenas 19% dos entrevistados indicam a escola como espaço de incentivo à leitura. As principais motivações para se ler continuam sendo o gosto pessoal, seguido por distração e busca de atualização cultural. Já os obstáculos mais citados são falta de tempo, desinteresse, custo elevado dos livros e competição com os meios digitais.
Diante desses dados, torna-se necessário repensar as estratégias de incentivo à leitura no país. A formação de leitores críticos e constantes não depende apenas de acesso físico aos livros, mas de uma articulação entre escolas, famílias, bibliotecas e políticas públicas. A leitura é uma ferramenta de transformação individual e coletiva, e sua valorização é essencial para o avanço cultural, democrático econômico e social.
A leitura é um direito fundamental que deve ser garantido a todos os cidadãos. É preciso trabalhar para que a leitura seja valorizada e promovida em todo o país, como uma ferramenta de transformação e avanço social.
Educadora, mestranda em educação, 20 anos de experiência em sala de aula e em planejamento escolar

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