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Confiança do consumidor cai em agosto e reforça clima de cautela no país

Na fila de um supermercado no bairro Alvorada, dona Maria segura o cartão de crédito com hesitação. O arroz subiu de novo, e o parcelamento virou rotina. Essa cena cotidiana ilustra o sentimento de milhares de brasileiros diante da economia: cautela.

Segundo dados divulgados pela Fundação Getulio Vargas, o Índice de Confiança do Consumidor caiu meio ponto em agosto, atingindo 86,2 pontos. O número reforça a tendência de insegurança das famílias, que seguem desconfiadas quanto ao futuro financeiro.

Apesar de uma leve melhora na percepção da situação atual, com o Índice de Situação Atual subindo para 84,5 pontos, as expectativas para os próximos meses voltaram a cair. O Índice de Expectativas recuou para 88,1 pontos, puxado pela piora na avaliação sobre a situação financeira futura da família, que caiu para 79,8 pontos — o menor nível desde setembro de 2021.

“O consumidor parece mais preocupado com o que está por vir do que com o presente. A alta do endividamento e a inflação ainda pressionam o orçamento das famílias, o que limita o otimismo”, afirma Viviane Seda Bittencourt, coordenadora da Sondagem do Consumidor da FGV.

Em Manaus, comerciantes da Zona Leste relatam queda de até 20% nas vendas de eletrodomésticos e móveis desde o início do ano. “As pessoas entram, olham, perguntam o preço, mas não compram. O medo de se endividar é maior que a vontade de renovar a casa”, conta Raimundo Silva, gerente de uma loja de varejo no bairro São José.

Mesmo com uma leve alta na intenção de compra de bens duráveis, que alcançou o maior nível desde dezembro de 2024, o movimento não foi suficiente para compensar o pessimismo generalizado. A confiança segue em uma faixa estreita, sem sinais consistentes de recuperação.

A percepção sobre a situação financeira atual da família teve leve melhora, mas ainda está em um nível considerado frágil. “Tenho evitado compras maiores, como eletrodomésticos. O salário não acompanha os preços”, diz Carla Mendes, auxiliar administrativa.

A baixa confiança tende a impactar diretamente o varejo e o setor de serviços, que dependem do consumo das famílias para manter o ritmo de crescimento. Economistas alertam que, sem uma melhora significativa nos indicadores macroeconômicos — como inflação, emprego e juros — o consumidor deve manter o pé no freio.

Com a aproximação das eleições municipais, especialistas apontam que o índice de confiança pode se tornar um termômetro político. A forma como os candidatos abordam temas como crédito, renda e consumo pode influenciar diretamente o humor do eleitorado.

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