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Milton Hatoum: O Amazonas que se torna imortal na Academia Brasileira de Letras

Em uma eleição marcada pela unanimidade e emoção, o escritor amazonense Milton Hatoum foi eleito nesta quinta-feira, 14 de agosto de 2025, para a Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo o jornalista Cícero Sandroni. Com 33 dos 34 votos possíveis, Hatoum torna-se o primeiro amazonense a ocupar uma vaga na prestigiada instituição, consolidando sua trajetória como um dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea.

Raízes amazônicas e formação intelectual

Nascido em Manaus, em 19 de agosto de 1952, Milton Hatoum é filho de um imigrante libanês e de uma brasileira do Amazonas. Cresceu cercado por múltiplas culturas — árabes, judeus, indígenas — que influenciaram profundamente sua obra. Aos 15 anos, mudou-se para Brasília e, posteriormente, para São Paulo, onde se formou em Arquitetura pela Universidade de São Paulo. Estudou literatura na Sorbonne, em Paris, e lecionou literatura francesa na Universidade Federal do Amazonas até 1999.

Obra literária: memória, identidade e Amazônia

Hatoum estreou na literatura com o romance “Relato de um Certo Oriente” (1989), vencedor do Prêmio Jabuti. A obra retrata uma família libanesa em Manaus e aborda temas como identidade, imigração e memória. Seguiram-se os aclamados “Dois Irmãos” (2000), adaptado para minissérie pela TV Globo, “Cinzas do Norte” (2005), vencedor de múltiplos prêmios, e “Órfãos do Eldorado” (2008), que virou filme em 2015.

Sua produção mais recente inclui a trilogia “O Lugar Mais Sombrio”, composta por “A Noite da Espera” (2017), “Pontos de Fuga” (2019) e “Dança dos Enganos” (2025), que exploram os traumas da ditadura militar brasileira.

Além dos romances, Hatoum publicou contos em “A Cidade Ilhada” (2009) e crônicas em “Um Solitário à Espreita” (2013). Suas obras já foram traduzidas para mais de 17 idiomas e publicadas em países como França, Alemanha, Estados Unidos e Líbano.

A eleição para a ABL e o significado da imortalidade

A candidatura de Hatoum à ABL foi sua primeira, incentivada por amigos e colegas como Ana Maria Machado. Em entrevista, o autor destacou que vê a Academia como uma instituição de memória e proteção à literatura brasileira, aberta ao diálogo com o público e à diversidade regional.

Sua eleição representa não apenas o reconhecimento de sua obra, mas também a valorização da literatura produzida fora dos grandes centros. “Ele traz todos os ecos do Brasil. Um Brasil que vem da Amazônia”, afirmou a acadêmica Miriam Leitão.

Um legado que transcende o papel

Milton Hatoum escreve todos os seus romances à mão, acreditando que o contato direto com o papel intensifica o pensamento e a emoção. Para ele, a literatura é uma forma de humanização e resistência. “Sem o leitor, não há nada”, declarou emocionado após a eleição.

Com sua entrada na ABL, Hatoum não apenas se torna imortal — ele eterniza a voz da Amazônia na história da literatura brasileira.

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