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O Brasil da Indignação Instantânea e dos Heróis de Likes

O Brasil vive uma eterna busca por heróis — não os que enfrentam batalhas reais, mas os que surgem do algoritmo, embalados por assuntos do momento e indignações de ocasião. A recente ascensão de Felca, influenciador que viralizou ao denunciar um caso grotesco de exploração sexual disfarçada de entretenimento (fato denunciado por Antônia Fontenelle, processada inclusive), é apenas mais um capítulo dessa novela nacional em que a moralidade é performática e a justiça, secundária.

A Política do Espetáculo

A polarização política brasileira transformou o debate público em um teatro de absurdos. Na direita, basta repetir chavões bolsonaristas para garantir votos. Na esquerda, o caminho é atacar Bolsonaro e vestir a capa de progressista. Em ambos os lados, o eleitor é guiado mais pela emoção do que pela razão, elegendo figuras sem preparo, mas com o figurino certo para o papel de salvador ou inimigo.

Felca, que antes protagonizava polêmicas misóginas, agora é alçado ao posto de herói por expor uma realidade que muitos fingem não ver: a normalização da sexualização de menores. Sua denúncia é válida, sim — mas o que se seguiu foi um espetáculo de oportunismo. Influenciadores e políticos correram para surfar na onda, não para proteger vítimas, mas para capitalizar engajamento.

Hipocrisia Bipartidária

A hipocrisia é democrática. À direita, há quem defenda teorias conspiratórias e líderes religiosos com histórico duvidoso. À esquerda, há quem aplauda exposições com nudez infantil, músicas que exaltam sexo e drogas, e até intervenções médicas em menores sem consenso científico. Criticar ambos os lados virou crime de opinião — ser considerado imparcial é quase uma ofensa.

A esquerda vê no caso Felca uma oportunidade de impulsionar a regulamentação da internet, com o pretexto de proteger, mas com o objetivo real de censurar adversários. A direita, por sua vez, transforma o influenciador em herói ou traidor, conforme a conveniência. Nenhum dos lados parece realmente interessado em endurecer leis ou fiscalizar abusos. O foco é o palco, não a plateia vulnerável.

A Indústria da Indignação

A sociedade do espetáculo, como dizia Guy Debord, vive de narrativas. A indignação coletiva não nasce da empatia pelas vítimas, mas da fome por atenção. O Brasil fabrica heróis em minutos e os destrói em horas, enquanto os verdadeiros combatentes da exploração infantil seguem invisíveis, sem reconhecimento, sem destaque.

É preciso romper esse ciclo. A proteção de crianças e adolescentes não pode depender da viralização de um vídeo. A justiça não pode ser pautada por popularidade. E o debate público precisa urgentemente de maturidade, responsabilidade e compromisso com a realidade — não com a próxima tendência.

Triste Brasil, onde o espetáculo vale mais que a verdade.

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